Traição às futuras gerações

Posted on Posted in AGENDA DA AGENDA, CIDADANIA
Compartilhe:Tweet about this on TwitterShare on LinkedInShare on Facebook

 

degeneração

Historiador vê a atual geração vivendo à custa daqueles que ainda não podem votar e mesmo dos que ainda nem nasceram.

Valor Econômico – Não é de agora que Niall Ferguson acredita que o Ocidente está selando seu destino rumo à decadência. A tese do historiador britânico havia sido apresentada em “Colosso”, quase dez anos atrás, quando o mundo ainda não dava sinais da crise que viria pela frente.

Naquele livro, Ferguson cobrava uma atuação decisiva dos Estados Unidos. O país deveria assumir de vez o papel de potência mundial e jogar o peso de sua influência em um projeto liberal para além de suas fronteiras. Como os americanos resistissem a arcar com os ônus de tal iniciativa, estava aberto o caminho para o que ele chamava de “a queda do império”.

Em “A Grande Degeneração – A Decadência do Mundo Ocidental“, Ferguson amplia o foco, mas mantém a perspectiva. O objeto é o mundo ocidental – não apenas os Estados Unidos. A crise econômica, que se arrasta desde 2008 e não dá sinais claros de quanto tempo irá durar, é o ponto de partida. O autor, porém, não está preocupado com as consequências materiais de curto prazo. Seu temor é que a Grande Depressão se transforme na Grande Degeneração.

O termo indica que Ferguson não está olhando apenas para os indicadores econômicos. Ao mencionar degeneração, ele tem em vista as leis e as instituições. São elas que, ao permitirem um ambiente de negócios em que há espaço para uma elite corrupta e no qual a burocracia pune os pequenos empreendimentos, estão na raiz do “estado estacionário” em que se encontra o Ocidente.

O conceito vem de Adam Smith (1723-1790). Para o filósofo escocês, o que caracteriza o estado estacionário é, no resumo de Ferguson, “a condição de um país que era rico e deixou de crescer”. O autor lembra que, para o fundador da economia política, tal estado tem “caráter socialmente regressivo”. Em “A Riqueza das Nações”, Smith diz que é no estado de progresso, e não na plenitude, que “a situação da grande maioria das pessoas parece ser a mais feliz”.

Para Ferguson, embora a degeneração do Ocidente se estenda às esferas políticas e culturais, sua origem é econômica. O autor insiste, como fizera em trabalhos anteriores, em apontar a dívida pública como a principal vilã da história. Mas dá um passo além. “O cerne da questão é o modo como a dívida pública permite que a atual geração de eleitores viva à custa daqueles que ainda são jovens demais para votar ou ainda nem nasceram.” A crise da dívida seria, portanto, um sintoma da “traição às gerações futuras”, uma ruptura do contrato social entre o presente e o futuro.

Ferguson concede que, em países como a Alemanha, houve reformas orçamentárias que limitaram o poder dos legisladores de intervir no déficit público. “O problema”, afirma, “é que a experiência da crise financeira fortaleceu significativamente o argumento a favor de se usar a dívida pública como ferramenta para estimular a economia em época de recessão”.

Qual a saída? Ferguson não é nada otimista. Para ele, o ideal seria uma reforma fiscal mais responsável, mas esse é o cenário que considera menos provável. Na segunda alternativa, as democracias ocidentais seguiriam em frente à sua maneira irresponsável, até imitarem a Grécia em sua espiral recessiva. A terceira possibilidade, verificada nos Estados Unidos e em outros países ricos, seria o contínuo aumento das dívidas a um custo baixíssimo, devido à fuga para a segurança. “O problema com esse cenário é que também implica crescimento baixo ou zero ao longo de décadas: uma nova versão do estado estacionário de Adam Smith.”

O ensaio de Ferguson é ambicioso e não se restringe à conjuntura econômica. Ele aponta os vícios da democracia (não basta depositar “pedaços de papel nas urnas”, diz, tendo em mente países como Venezuela e Rússia), as armadilhas do capitalismo clientelista e a acomodação da sociedade civil.

É no campo da sociedade civil que o autor defende sua tese mais polêmica. Ferguson escreve informado por Alexis de Tocqueville (1805-1859), o teórico político francês entusiasta dos primórdios da democracia americana, que resultou do florescimento de uma vibrante sociedade civil. Para Ferguson, essa sociedade está murchando, e não há rede social que lhe dê sobrevida.

Tocqueville entendia a sociedade civil como um contrapeso necessário ao que ele chamava de “tirania da maioria”. Ferguson vai um pouco mais longe, e sugere uma substituição de papéis. Seu exemplo é prosaico, mas bastante claro: cansado de ver a sujeira se amontoar em sua casa de praia no País de Gales, ele convoca voluntários para fazer o serviço. Ao dispensar a presença do poder público, porém, o autor não considera que a origem do problema – a geração do lixo e sua dispensa em alto-mar – é algo que deveria ser controlado por algum nível de governo.

O ponto mais controverso do livro é a proposta de que países que oferecem educação pública universalizada nos níveis fundamental e médio deveriam estimular o surgimento de escolas particulares, em nome da diversidade. “Em todo o mundo, países inteligentes estão se afastando do modelo ultrapassado de educação monopolizada pelo Estado e permitindo que a sociedade civil retorne à educação.”

Ferguson argumenta com base na comparação dos dois modelos, que dá vantagem aos alunos de escolas particulares. O acesso dos que não podem pagar seria garantido por um sistema de bolsas de estudo. Isso não é elitismo, afirma. Para ele, ser elitista é querer manter crianças pobres em escolas ruins.

A crítica óbvia a tal proposta é sua frágil premissa: escolas públicas não precisam ser, necessariamente, ruins. Melhorar o ensino fornecido pelo Estado, porém, é uma possibilidade que Ferguson não considera. Em vez disso, elogia redes de escolas brasileiras, que cita nominalmente. Sem entrar no mérito da qualidade do ensino privado no Brasil, o problema da ideia defendida pelo autor é considerar essas escolas como paradigmas de uma política pública educacional.

Fonte: Oscar Pilagallo / Valor Econômico

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *