Saneamento básico: enterrar canos também é preciso

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Vila Dique, Porto Alegre, RS.
Vila Dique, Porto Alegre, RS.

 

Um dos mantras repetidos para estimular gastos em saneamento básico – carência histórica do Brasil – é que, a cada real investido no setor, economiza-se, pelo menos, R$ 4,00 em saúde pública. Seria, portanto, uma medida preventiva e de grande eficácia na gestão dos gastos governamentais.

Entretanto, outro bordão historicamente citado no País é que “enterrar canos não dá votos”. Ou seja, sob o ponto de vista político, valeria muito mais a pena construir vistosos viadutos – obra que será lembrada no dia a dia – do que aplicar vultosos recursos em redes de esgoto.

É o caso de lembrar dessas afirmativas, tendo em vista que estamos próximos de mais uma eleição. E também porque o Rio Grande do Sul não é exceção no quadro de baixíssimos índices de coleta e tratamento de esgotos no Brasil.

Para auxiliar no debate das eleições municipais, a Agenda 2020 fez uma avaliação das 50 maiores cidades gaúchas. E um dos piores indicadores – ao lado da segurança pública – é exatamente na área de saneamento. A média dessas localidades é de 30% de esgoto coletado e apenas 15% tratado.

O dado é ainda mais alarmante se considerarmos que se tratam de alguns dos municípios mais ricos do Rio Grande do Sul. Por isso, não é de se estranhar que o dado seja ainda pior se forem contabilizadas apenas as cidades atendidas pela Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan).

Nas 316 localidades em que a empresa gaúcha presta o serviço – onde vivem quase 6 milhões dos 11 milhões de habitantes do Estado -, o índice de esgoto tratado é de 12,78%. Municípios maiores como Porto Alegre, Caxias do Sul, Pelotas, Novo Hamburgo, São Leopoldo e Bagé têm empresas próprias de saneamento.

Mas o quadro geral é ruim. A Região Metropolitana de Porto Alegre tem alguns dos rios mais poluídos do Brasil. E mesmo após o Pró-Guaíba (Programa para o Desenvolvimento Socioambiental da Região Hidrográfica do Guaíba) – que não foi totalmente executado, é verdade, apenas o Módulo I foi adiante -, rios como o Sinos e o Gravataí seguem recebendo grande quantidade de esgoto não tratado e efluentes industriais.

A culpa não é só dos gestores públicos. As estações de tratamento de esgoto inauguradas no início da década passada em Cachoeirinha e Gravataí – financiadas pelo extinto Pró-Guaíba – ficaram por vários anos ociosas, simplesmente porque os donos das residências não queriam fazer a ligação com a rede que passava em frente às suas casas. Ou seja, além de grandes investimentos, é preciso a participação de todos e educação ambiental para a população, a fim de conscientizarmo-nos sobre o nosso maior bem, a água potável.

Não por acaso, o tema emergiu nos últimos meses em Porto Alegre em função do gosto e odor na água que abastece vários bairros. Nesse momento, todos despertam para o problema e querem solução. Mas o debate ambiental deve ser um tema permanente da sociedade.

O Programa Integrado Socioamental (Pisa) promete, ao ser concluído, elevar os índices de tratamento de esgotos em Porto Alegre a quase 80%. Enquanto isso não acontece, nosso manancial, o Guaíba, segue poluído – é bem verdade, com a contribuição dos rios que desaguam por aqui, trazendo esgoto doméstico, industrial, lixo, agrotóxicos etc.

O saneamento básico deve ser encarado como prioridade por todos, e a sociedade precisa fazer sua parte – a começar pela separação correta do lixo – e pressionar governantes para que a premissa de que o tratamento de esgotos não dá votos não seja preponderante. Enterrar canos também é preciso. No nosso caso, é urgente.

*Editorial do Jornal do Comércio do dia 27 de julho de 2016.

Consulte os dados de saneamento da sua cidade no site da Sinaleira 2020.

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