CONSTRUINDO REDES E MOVIMENTOS PARA MUDANÇA SOCIAL

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Lições de uma iniciativa voltada ao apoio e desenvolvimento de líderes para justiça social

Texto de Heather McLeod Grant publicado originalmente no blog do Stanford Social Innovation Review.

O campo social passa por um crítico ponto de inflexão, um momento onde forças externas e internas desafiam as formas tradicionais de fazer as coisas. O campo passa por uma transferência de poder Intergeracional, na medida em que a liderança de organizações sem fins lucrativos se transfere das mãos de baby boomers para uma diversificada Geração X e para millenials (ou Geração Y) que trazem novas perspectivas de como exercer liderança.

Ao mesmo tempo, novas tecnologias – como as mídias sociais por exemplo – estão acabando com as abordagens “analógicas”, e ameaçando desconstruir espaços tradicionais dentro e entre organizações. E quanto mais as organizações sem fins lucrativos experimentam abordagens como o impacto coletivo, a colaboração vai se tornando a nova norma, em vez de uma rara exceção. Consequentemente, há um crescente reconhecimento de que precisamos de novas estratégias e táticas para fazer mudança social.

Em 2010, reconhecendo essas mudanças e ansiosa para experimentar novas abordagens para o investimento social, a Levi Strauss Foundation (LSF) com sede em San Francisco (EUA) lançou um programa chamado “Pioneiros na Justiça”. O programa oferece apoio intenso a um grupo de líderes da Geração X que atuam na região chamada Bay Area, uma região da cidade de São Francisco nos Estados Unidos, líderes que tinham recentemente se tornado diretores executivos de organizações sem fins lucrativos dedicadas a promoção da justiça social. Nos últimos anos, o programa ajudou essas instituições a desenvolver competências nas áreas de mídia social, a saírem da condição de organizações que esperam o tempo passar, a mobilizar redes e movimentos mais amplos para gerar maior impacto social. Em suma, o programa ajudou a atravessar o abismo entre as tradicionais e as novas formas de atuação das organizações da sociedade civil.

O programa da LSF ofereceu aos participantes três tipos específicos de apoio:

1. Doações para financiar capacitações que permitam instalar a infraestrutura tecnológica adequada, bem como as estratégias e habilidades em comunicação que são necessárias para integrar as mídias sociais no trabalho das instituições;

2. Doações para apoiar projetos e parcerias experimentais que envolvam atores de diversos setores, campos, causas e públicos;

3. Fóruns bimestrais entre pares, onde as lideranças podem compartilhar experiências, aprender em conjunto e apoiarem-se uns aos outros para explorar novas maneiras de disseminar sua mensagem e ampliar seus movimentos.

Nos primeiros três dos cinco anos de programa, a LSF investiu perto de 2,9 milhões de dólares, incluindo USD 1,72 milhões para capacitação e USD 580 mil para projetos em colaboração.

Na metade da implementação, a fundação me contratou para escrever sobre as muitas lições que eles estavam aprendendo. O resultado foi o relatório “Pioneers in Justice: Building Networks and Movements for Social Change” (Pioneiros na justiça: construindo redes e movimentos para mudança social), que acabou de ser publicado pela Levi Strauss Foundation. O relatório documenta as muitas formas pelas quais as lideranças da Geração X ajudaram a transformar suas organizações. A esperança da fundação é que o programa possa servir como um modelo para todas as instituições sem fins lucrativos e seus financiadores que estejam buscando atuar em rede para escalar seu impacto.

A teoria de mudança da LSF e as lições aprendidas

A_New_Model_for_Social_Change_chartA teoria de mudança do programa pode ser visualizada na forma de quatro círculos concêntricos, com a transformação acontecendo em cada nível desse sistema: os líderes, suas organizações, suas redes e seus movimentos ampliados.

O programa Pioneiros está ancorado na crença de que o campo da justiça social como um todo deve mover-se do modo “1.0” para o modo “2.0” de operação. Um modelo que prioriza o diálogo ao invés da comunicação unidirecional, a colaboração sobre a ação individual, e poder das bases comunitárias e populares sobre a autoridade organizacional. Através do programa, a fundação continua a testar uma teoria da mudança que pode ser visualizado como quatro círculos concêntricos, com os líderes no centro, em seguida, suas organizações, em seguida, suas redes e, finalmente, os movimentos mais amplos que essas redes estão ajudando a construir. O objetivo é ajudar a transformar cada área, com as mídias sociais e a atuação em colaboração como força motriz que podem aumentar a velocidade e ampliar o escopo das mudanças que estão ocorrendo em todos os níveis do sistema, não de uma forma linear, mas em cada círculo simultaneamente.

O programa permitiu que esses novos líderes pudessem produzir mudanças transformadoras em diversos níveis nos quais operam. Ele permitiu ajudar as organizações a:

1. Incluir a mídia social no seu dia a dia, promovendo capacidades organizacionais em torno do uso de novas tecnologias, aprofundando a compreensão de como a mídia social pode desconstruir espaços tradicionais e mudar a forma como as organizações sem fins lucrativos trabalham, bem como ajudando-as a se adaptarem mais rapidamente. Por exemplo, no início do programa, a instituição Equal Rights Advocates (ERA) usava computadores antigos, sem banda larga ou capacidade de compartilhar vídeos, um site estático e desatualizado, e pouca capacidade interna em torno de como usar a mídia social. Depois de apenas dois anos, a organização usou o financiamento obtido pelo Pioneiros para atualizar toda a sua infraestrutura tecnológica, saindo da era do fax para enviar comunicados de imprensa e usar formas muito mais atuais de comunicação. O programa ajudou a transformar a capacidade de disseminar sua mensagem e envolver outras pessoas no seu trabalho.

2. Desenvolver uma nova liderança, administrando as transições de liderança executiva, encontrando maneiras de compartilhar a liderança nos cargos de maior responsabilidade e em relação a diretoria. Também foi possível a experimentação de novas formas de compartilhar a liderança que rompem com as abordagens tradicionais, mais hierárquicas. Em uma das organizações, a Asian Americans Advancing Justice, isso aconteceu quando dois líderes dividiram o papel de diretor executivo. Ao partilhar o poder no topo da organização, os codiretores Hyeon-Ju Rho e Chris Punongbayan foram capazes de dividir uma posição extremamente sobrecarregada em um tipo de atividade muito mais sustentável para os dois. Além da modelagem de formas mais flexíveis e compartilhadas de liderança para seus colaboradores, a organização pode sobreviver bem a uma transição de liderança quando Rho recentemente deixou o emprego. De fato, lidar com transições de liderança foi um tema importante para quase todos os grupos do programa, já que líderes de organizações sem fins lucrativos mudam de emprego com mais frequência nos dias de hoje.

3. Catalisar a mudança organizacional criando organizações que observam o contexto exterior, que adotam a colaboração, deixando de lado o ego organizacional a serviço de uma causa maior, garantindo que a equipe e o conselho estejam alinhados em torno de abordagens de trabalho em rede, e fomentando líderes entre pessoas de uma próxima geração. Por exemplo, Kimberly Thomas-Rapp, que dirige a Comissão de Advogados pelos Direitos Civis, convocou seu conselho diretor formado inteiramente por advogados para ajudar a transformar a cultura da organização e adotar formas mais abertas, transparentes e engajadas de trabalhar com seu público. Ela diz que o programa ajudou uma vez que permitiu o importante apoio de seus pares durante um crítico ponto de inflexão, além de ter reforçado suas relações com o conselho diretor da instituição. Outros grupos usaram o programa para ajudar a mudar as suas culturas e estruturas organizacionais de forma a adotar maneiras de trabalho mais em rede.

4. Construir redes, facilitando a colaboração entre e através de organizações semelhantes, trabalhando nos “cruzamentos” de várias áreas temáticas, e fazendo a transição para que sejam organizações mais conectadas em rede por meio do compartilhamento de marcas e de instituições de suporte. Vincent Pan, diretor executivo da Chinese for Affirmative Action (CAA), foi inspirado pelo programa para catalisar uma nova rede local chamada Asian Americans for Civil Rights and Equality. A rede permite que oito organizações de base lideradas por voluntários, pudessem compartilhar infraestrutura de escritório e aproveitar alguns dos recursos da CAA para expandir dramaticamente seu impacto com muito menos investimento. É um grande exemplo de como usar as redes para tornar o todo maior que a soma das partes.

5. Dar início a movimentos por catalisar a ação coletiva mais ampla e mais eficaz, envolvendo públicos novos e mais diversificados, construindo em base aos valores de justiça social do passado enquanto usando novas ferramentas para acelerar a mudança. Abdi Soltani, diretor executivo do Northern California ACLU, foi um verdadeiro pioneiro no que diz respeito a expansão de público do que era, tradicionalmente, uma instituição de associados predominantemente brancos e baby-boomers. Ao abrir um escritório no Vale Central, estendendo a mão para os estudantes universitários, criando programas em espanhol para envolver Latinos, e unindo forças com outros grupos de direitos civis para impulsionar a reforma da imigração, ele conseguiu aumentar e diversificar os membros da instituição, aumentando em muito o número de pessoas preocupadas com sua causa. Na verdade, todos os pioneiros trabalharam juntos na reforma das políticas de imigração, contribuindo para a aprovação de mudanças na legislação do Estado da Califórnia.

Mesmo que o programa Pioneiros esteja ainda há dois anos de seu fim, a Levi Strauss Foundation já aprendeu muito com sua experiência apoiando lideranças envolvidas com a justiça social e ampliando seu impacto. A fundação acredita que encontrou um modelo promissor e que esse tipo de investimento social é a melhor prática para atingir um maior impacto social.

Heather McLeod Grant é fundadora da McLeod-Grant Advisors; é consultora, palestrante, instrutora e empreendedora com mais de vinte anos de experiência no campo social. É co-autora de Forces for Good: The Six Practices of High-Impact Nonprofits (Forças para o Bem: as seis práticas das organizações sem fins lucrativos de alto impacto), e muitos outros artigos.

Este artigo foi escrito pela especialista em impacto social e autora Heather McLeod Grant, e publicado pela Levi Strauss Foundation para ajudar a registrar e compartilhar as lições que emergem de seu trabalho.

Este artigo foi traduzido e publicado com autorização do Stanford Social Innovation Review. Leia este artigo em Inglês clicando aqui. Saiba mais sobre a Stanford Social Innovation Review em www.ssireview.org.

Fonte: Social Good Brasil

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