Um modelo de escola para o futuro bem do nosso lado

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Uma reportagem publicada nesta quarta-feira, 28, no jornal Zero Hora, mostra a realidade de uma escola um tanto diferente: acesso livre a internet e smartphones, disciplinas que se interrelacionam, ambientes próprios para o aprendizado de cada conteúdo, paredes com poemas, mapas e um currículo que saiu do gesso da escola tradicional. Essas e outras peculiaridades podem ser encontradas na Escola Sesi de Ensino Médio Albino Marques Gomes, em Gravataí.

A partir desta reportagem do jornalista Guilherme Justino (que reproduzimos abaixo), podemos e precisamos pensar no modelo de escola que formará cidadãos para o futuro. O que ela precisa ter? Hoje, estamos formando que tipo de cidadãos? O ensino médio termina e como os jovens são vistos pela sociedade e se inserem nela? Certo é que, pelos resultados que historicamente o Brasil obtém nos níveis de educação, ainda há muito o que se fazer no sentido de colocar o aluno em primeiro lugar quando as pautas educacionais estiverem em xeque.

Foto: Matheus Bruxel/Agência RBS

Reportagem de Zero Hora

Guilherme Justino – guilherme.justino@zerohora.com.br

Com cuidado, o robô tem de pegar a abelha e largá-la na colmeia. Depois, é preciso agarrar o mel e, sem derrubar nada, voltar à base. Em mais uma tentativa dos estudantes que programaram a tarefa com pequenas peças de brinquedo, o robô passa reto pela abelha, ignora a colmeia, volta sem o mel e ainda atropela um porco no caminho.

Assim foi parte de uma aula de robótica na Escola Sesi de Ensino Médio Albino Marques Gomes, em Gravataí, na semana passada. Inaugurado em fevereiro, o colégio foge ao modelo tradicional de ensino: com uso liberado de aparelhos eletrônicos, aprendizado realizado a partir de situações-problema e busca constante pela autonomia dos estudantes, a proposta é ter alunos motivados e professores capazes de dialogar com as diversas áreas do conhecimento em espaços que proporcionam um ambiente aberto para essas experiências.

Mas, de volta ao circuito de robótica, a falha na automação nada mais é do que outra oportunidade de aprender.

– Por que não deu certo, sor? – quer saber um jovem.

A resposta não é direta: o professor explica novamente a missão e retribui o questionamento, pondera por que fazer daquela forma, se não vale testar outro percurso, talvez mais simples. Propõe algumas opções. Colegas discutem, uns vão para o software de programação, outros reorganizam as peças, tentam descobrir o que deu errado. Alguns ajustes, e logo o robô volta a percorrer a trilha desejada e, desta vez, coloca a abelha no seu lugar. Todos comemoram.

O circuito continua com uma série de desafios análogos às missões com que os próprios estudantes têm de lidar. Em busca de soluções para os problemas propostos, eles trabalham cooperação, liderança, uso da tecnologia e uma variedade de conhecimentos obtidos em sala de aula e fora dela. Tudo parte da noção de que, mais do que ensinar e aferir conhecimento, o papel da escola é também preparar seus acolhidos para a profissão, para a universidade e para a vida.

– A escola não busca ser tradicional quanto ao aprendizado. Os alunos vão sair daqui e vão para o mundo – explica Anderson Demutti, professor de teatro, que também dá aulas de robótica. Essa visão do conhecimento como um todo culmina em uma eficácia maior para eles. O aprendizado se dá de forma muito natural.

Música, teatro, jogos e empreendedorismo

A multidisciplinaridade é uma das marcas da escola, que segue um modelo desenvolvido pelo Serviço Social da Indústria (Sesi) especificamente para o Rio Grande do Sul. Há outras escolas Sesi espalhadas pelo país, e há anos a instituição vem investindo na Educação Infantil e continuada. Mas, em 2014, a partir de um projeto-piloto realizado em Pelotas, o Sesi resolveu apostar também no Ensino Médio. Além de Gravataí e Pelotas, foram inauguradas, nos últimos anos, escolas de Ensino Médio em Montenegro e Sapucaia do Sul. A expectativa é de que sejam abertas outras duas escolas, em Caxias do Sul e em São Leopoldo, até 2020.

– A escola adota um viés que motiva o desenvolvimento individual dos alunos com dinâmicas coletivas. Eles têm aulas de música, de teatro, de empreendedorismo – afirma a diretora da instituição, Bianca Visentin.
– Trabalham com jogos para desenvolver o raciocínio lógico. Todos têm um notebook à disposição e podem usar seus próprios celulares e tablets para propor novas questões ou resolver as que ficaram pendentes.

A proposta se reflete nas dependências da escola. O acesso à rede wi-fi é liberado para todos, e ver os alunos de smartphone em punho não significa que o professor está falhando em manter a atenção deles – ainda que alguns aproveitem para acessar as redes sociais e se distrair durante a aula. As salas são divididas por temas e chamadas ambientes: há um para ciências da natureza, outro para linguagens, mais um para ciências humanas e outro para exatas. Números, poemas, mapas colocados pelos próprios alunos se espalham pelas paredes temáticas.

A divisão dessas áreas dentro do currículo também não é a tradicional. Estudando em turno integral, os alunos têm o ensino assim dividido: 30% para código e linguagens (português, literatura, línguas estrangeiras, artes e educação física), 20% para ciências humanas (história, geografia, sociologia e filosofia) e 50% para matemática e ciências naturais (química, física e biologia). Ao longo da formação, estão previstas atividades que ajudem os alunos a aprofundar o conhecimento nas áreas para as quais eles se sentirem vocacionados.

Turmas pequenas e mesas em círculo

Turmas pequenas, entre 20 e 30 alunos, dividem-se em salas sem fileiras, mas com mesas dispostas em círculos. A divisão em grupos, acredita a escola, favorece o aprendizado por meio da solução de problemas em conjunto. A maioria dos alunos vem da rede pública e, dos atuais 113 alunos matriculados, 112 não pagam mensalidade. O ensino na escola é gratuito para filhos de trabalhadores da indústria. Assim, pais e mães que trabalham em empresas como Pirelli, GM e Philip Morris, em Gravataí e região, não têm custos. Jovens que não são filhos de industriários também podem candidatar-se, mas, nesses casos, a mensalidade fica em torno de R$ 1,2 mil.

– Ter aulas de robótica, teatro e música são coisas que a gente não via em outras escolas. A gente vem para cá e fica até meio deslumbrado – diz o estudante Wesley Padilha, 16 anos. – Tem jovens que gostariam de estar aqui e não puderam. Então, damos muito valor.

No início, a escola teve dificuldades para selecionar os alunos. As inscrições começaram em 2016 e estenderam-se até o verão por quatro chamadas – a causa seria o desconhecimento das famílias em relação a um colégio de proposta diferenciada, que sequer havia sido inaugurado. Hoje, há apenas alunos de 1º ano, mas a estrutura poderá receber mais cerca de 200 alunos, de 2º e 3º anos, a partir de 2018 e 2019.

Inscrever-se, porém, não é garantia de obtenção de vaga. Os candidatos passam por entrevistas, nas quais são avaliados disposição, capacidade de articulação e potencial para o empreendedorismo. Outra questão fundamental é saber se o jovem e sua família poderão manter-se durante os três anos de ensino em turno integral, sem que seja preciso trocar de escola ou ir atrás de emprego.

Alunos controlam os próprios horários

Passadas essas etapas, é necessário adaptar-se às novidades. Além de todas as mudanças na forma de ensinar, também a rotina na escola é diferente. A diretora Bianca Visentin ilustra um problema encontrado (e solucionado) nos primeiro dias de aula pelos recém-chegados.

– Deixamos uma geladeira no refeitório. Logo, eles começaram a levar de tudo e aquilo ficou cheio. Aí vieram me pedir: “Ô, sora, tem que esvaziar aquilo ali”. Solicitaram outra geladeira. Eu disse: “A geladeira é aquela ali. Vocês que têm de se organizar”. Olha agora como está – conta Bianca, mostrando o aparelho limpo e organizado.

Outra diferença é que, ao fim das aulas, não se ouvem sinais. A proposta é que os próprios alunos controlem os horários e se dirijam ao ambiente da próxima aula. Não há salas por turmas, como no modelo tradicional. Assim, nada de esperar o professor chegar: é o aluno quem vai em busca do conhecimento.

– Os estudantes circulam muito nas dependências do colégio, têm salas-ambiente para aulas de português, biologia, física – destaca a gerente de Educação do Sesi-RS, Sonia Bier. – Estudar, para eles, é também uma tarefa de mobilidade.

O resultado é que aprender acaba se tornando uma tarefa que vai além da escola. E os alunos dedicam-se mais ao estudo, até mesmo além das cerca de 10 horas por dia que já passam na escola.

A inspiração para esse modelo de ensino, conforme a gerente de educação do Sesi, veio de experiências internacionais: foram avaliados alguns dos sistemas de educação considerados mais eficazes do mundo e, então, foi formulado o currículo da instituição.

O que há de diferente em relação às instituições convencionais

Para os alunos
– Há aulas de música, teatro e robótica. Aborda-se o empreendedorismo.
– Em vez de ficarem ¿em recuperação¿, os alunos passam por processos de ¿reconstrução¿. Os conteúdos são constantemente reforçados.
– A partir do 2º ano, alunos passam por cursos de qualificação profissional.

Para os professores
– A maior parte dos 15 docentes trabalha na escola em regime de dedicação exclusiva. É incentivado que eles pensem nas aulas em conjunto.
– É garantido tempo, na escola, para que os professores planejem as aulas e trabalhem o desenvolvimento individual dos alunos.

Para os pais
– Filhos de trabalhadores da indústria são isentos de mensalidade.-Em caso de demissão, há a garantia de um ano de matrícula sem custo.
– Com alta adesão, as reuniões de pais mostram um pouco do que os próprios estudantes estão aprendendo, inclusive em aulas como robótica.

Na escola
-Não há sinal avisando o início ou fim de um período: os próprios alunos organizam-se para ir às salas de aula no tempo certo.
-Não há salas por turma: as aulas são feitas em ¿ambientes¿, como o de humanas e o de exatas. Os alunos se deslocam de uma aula para outra.

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