País vive ‘fuga’ de brasileiros para o exterior. Quais as consequências disso?

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Crise, recessão e violência fazem com que muitos brasileiros procurem começar do zero em outro país. Mas, e quem fica no país, faz o quê?

Crise política, recessão econômica e índices de violência alarmantes são o estopim para que muitos brasileiros deixem o país em busca de oportunidades no exterior. De acordo com a Receita Federal, entre 2014 e 2016 foram entregues 55.402 declarações de saída definitiva do país, um crescimento de 82% em relação ao triênio anterior. Na outra mão, o Brasil também é menos atraente para estrangeiros.

Embora essa “fuga de cérebros” não chegue a afetar de forma contundente a economia, o cenário mostra o tamanho do desalento em relação ao país.Há números que reforçam a constatação. Quem busca uma oportunidade fora do país não está satisfeito com as condições de empregabilidade por aqui. De fato, desde o início de 2015, a taxa de desemprego vem crescendo e, apesar de um recuo tímido nos últimos dois meses, ainda é muito alta.

De acordo com o IBGE, na última Pnad, há 13,8 milhões de brasileiros desempregados (dados dos meses de março, abril e maio). Esse número é quase o dobro do registrado no primeiro trimestre de 2015. A taxa de desocupação também recuou um pouco nesse período: foi para 13,3%, mas é o maior valor desde o segundo semestre de 2013.

De outro lado, o Atlas da Violência 2017, do Ipea e Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mostrou que o Brasil continua tendo altos índices de mortes violentas.Foram 59.080 mortes no país em 2015, um número 2,3% menor do que em 2014, mas 22,7% acima do registrado em 2005. Isso torna o Brasil um dos países mais violentos do mundo, com taxa de homicídio de 28,9 por 100 mil habitantes.

Impacto na economia

Apesar do aumento da saída de brasileiros, Naercio Aquino Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, pondera que o número ainda não é relevante, do ponto de vista estatístico. “O Brasil é grande e tem a população muito grande. O número de pessoas saindo é pequeno e isso não afeta a economia, ainda. A não ser que os que saíssem fossem os mais inteligentes do país”, sustenta.

Para Luciano Nakabashi, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP de Ribeirão Preto, a saída de brasileiros é negativa, mas também não afeta diretamente a economia – a não ser em um cenário de ameaça para futuras lideranças e produtividade. “É mais uma vez que a gente se frustra enquanto país, que não dá oportunidade para as pessoas. Com a crise e os problemas de corrupção que a gente vive, fica claro que muito de conseguir sucesso no Brasil é porque você conhece alguém ou porque faz as coisas de maneira errada”, diz.

País falhou com os brasileiros…

O desencanto com o país vem numa crescente. Depois do impeachment de Dilma Rousseff (PT), presidente que descuidou das contas públicas e deu origem à recessão econômica atual, seu sucessor Michel Temer (PMDB) está tão enrolado em escândalos que tornou-se o primeiro presidente do Brasil investigado por corrupção durante o mandato. A Câmara dos Deputados analisa a admissibilidade de um processo contra Temer. Se afastado, ele seria substituído por Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara e próximo da linha de sucessão, que também é alvo de inquéritos, suspeito de receber dinheiro para suas campanhas via caixa 2.

Essa “diáspora dos brasileiros” reflete que a situação no país piorou muito nos últimos anos. “O Brasil falhou. A produtividade está no mesmo nível há décadas, a violência é alta, a desigualdade é muito grande. A situação política está ruim e é uma decepção muito grande para os brasileiros”, analisa Menezes Filho. Para ele, como a situação no país é difícil – recessão grande, queda do PIB per capita, poucas perspectivas no mercado de trabalho, a crise política e escalada da violência –, quem pode pagar os custos de uma mudança e começar uma vida fora tende a ir embora.

… E atrai menos estrangeiros

“E menos pessoas vêm para cá, ao contrário do que aconteceu nos últimos anos, quando o Brasil bombava e a Europa ia mal”, avalia Menezes Filho. O número de autorizações de trabalho concedidas a estrangeiros vem caindo nos últimos anos. Dados do Ministério do Trabalho mostram que a redução vem ocorrendo desde 2014. No primeiro trimestre de 2014, foram 10.488 autorizações contra 6.415 no mesmo período deste ano. O número de carteiras de trabalho emitidas pelo Ministério do Trabalho também caiu na comparação dos primeiros trimestres de 2016 e 2017. No ano passado foram emitidos 8.066 documentos contra 7.989 neste ano. A maioria dos imigrantes são do Haiti e Venezuela, seguidos por outros países da América Latina, como Cuba, Argentina e Bolívia.

No fim das contas, o Brasil acaba recebendo imigrantes que fogem de países que estão em situação verdadeiramente caótica – como é o caso de Haiti e Venezuela. “As pessoas não vêm porque veem oportunidade no Brasil e decidem vir. Elas vêm para fugir de uma situação caótica”, pondera Nakabashi. Nesses casos, muitos dos imigrantes, por mais qualificados que sejam, acabam trabalhando em qualquer atividade porque o objetivo é ajudar no sustento da família que ficou no país de origem. Do mesmo modo que ocorre com muitos brasileiros que vão tentar a sorte no exterior até mesmo como imigrantes ilegais.

Hora de inverter a chave

Perder a população – em muitos casos qualificada, com alta escolaridade e espírito empreendedor – e não atrair estrangeiros é ruim. Mas tem uma solução – que é complexa. “Se você arruma o país para quem fica, acaba invertendo o fluxo. É como quando você vê os Estados Unidos, um país organizado, que funciona, dá certo e gera oportunidade e tem muita gente indo para lá”, avalia Nakabashi.

No Brasil, o buraco é mais embaixo. A crise de hoje é reflexo da estagnação e baixa produtividade de décadas. “Quais são os erros que estamos cometendo de forma sistemática para sair dessa inércia que estamos há quase três ou quatro décadas? Se pegar a questão das reformas, muito da culpa é do próprio brasileiro, que não quer fazer isso. Claro que pessoas serão afetadas, mas ninguém quer mudar. Para o país, a longo prazo, isso é péssimo”, argumenta o professor.

Para Menezes Filho, o Brasil precisa criar instituições sólidas, que deem condições a todos. Ele cita como exemplo o Supremo Tribunal Federal e o Judiciário, nas ações da Operação Lava Jato. “O caminho é mudar todo o país, a cultura, as instituições e acabar com a corrupção generalizada”, diz. A punição eficiente da corrupção pode ser o começo da guinada brasileira.

Fonte: Gazeta do Povo

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